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A Síndrome do Espelho

Publicado em 23/12/2008

Você é uma mulher bonita, de chamar a atenção na rua. Mas, ao olhar-se no espelho, vê a imagem de uma mulher horrível, cheia de defeitos, incapaz de despertar amor ou admiração em homem algum. Que tristeza! Esse é um sintoma típico da body dysmorphic disorder (BDD), a nova classificação psiquiátrica para problemas de auto-imagem, comuns em casos de depressão ou angústia.

A síndrome do espelho, como a BDD é conhecida pelos médicos brasileiros, já atacou praticamente todas as mulheres, ainda que por um instante. O problema se agrava, porém, quando a portadora de BDD bate à porta de um cirurgião plástico para reformar algo que um bisturi jamais resolverá: a sua imagem interna. De 15% a 17% das mulheres que procuram uma clínica carioca, como a Interplástica, por exemplo, têm problemas psíquicos e não estéticos, segundo o cirurgião plástico Farid Hakme, diretor da clínica. Para o médico, a solução, nesses casos, é a psicoterapia, jamais a cirurgia plástica. O resultado seria catastrófico não só para a paciente, mas para o médico, que viraria motivo de críticas e de eternas frustrações.

"Uma situação bastante comum é a mulher de 50 anos que está mal no casamento e acha que uma plástica resolverá o seu problema conjugal. Se ela fizer a cirurgia e a sua vida conjugal não melhorar, vai culpar a plástica e o cirurgião. Essa mulher não deve ser operada, porque pode até agravar seus problemas emocionais. Além do que, vai falar mal do médico para o resto da vida", comenta Farid.

PSICÓLOGO – A campeã de windsurfe Dora Bria, por exemplo, já sabe que quando não está bem emocionalmente vive o que chama de "efeito Pinóquio do baixo-astral". Começa a achar o seu nariz enorme e programa uma plástica. Dois ou três dias depois, o astral melhora e ela desmarca a cirurgia.

"Eu tenho mesmo um calo no osso, devido a um acidente no mar. É engraçado. Quando não estou bem, o nariz cresce como o do Pinóquio e quero operá-lo. Acho que toda mulher passa por esses momentos. Antes era pior, eu era mais insegura. Hoje lido melhor com isso, sei que é a cabeça que está mal e não o nariz", afirma Dora.

O professor Ivo Pitanguy foi o primeiro a identificar as mulheres que, segundo ele, sofrem de morfofobia, ou seja, fobia da própria forma. Ele encaminha os casos suspeitos para a sua filha, a psiquiatra Gisela Pitanguy. "Costumo dizer que o cirurgião plástico é um psicólogo com um bisturi na mão. Se ele percebe que a mulher tem um problema psíquico não deve operar", recomenda.

O cirurgião plástico Marcelo Daher, que voltou de um congresso sobre BDD nos Estados Unidos, explica que outros sintomas são a preocupação excessiva em se olhar em espelhos, vidraças de janelas ou de automóveis nas ruas, a mania por ginástica e por dietas. E mais: uma tentativa constante de cobrir a parte do corpo que considera defeituosa com algum tipo de disfarce.

Farid Hakme ressalta, porém, que a plástica pode ser excelente para aliviar a depressão de mulheres de meia-idade que, segundo ele, querem apenas ficar mais bonitas. "Elas querem levantar o ânimo e conseguem. Ficam felizes da vida. Há ainda problemas exclusivamente físicos, que terapia alguma vai resolver", diz.

Fonte: Jornal do Commércio – Recife
29 de julho de 2001
http://www2.uol.com.br/JC/_2001/0308/fa2907_1.htm



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